CARTA ABERTA sobre os serviços da assistência social 2025

CARTA ABERTA — REFLEXÃO SOBRE OS SERVIÇOS DE
ACOLHIMENTO E ATENDIMENTO SOCIOASSISTENCIAL


A vida de TODOS os trabalhadores da assistência social importa.


Um educador.
Um trabalhador.
Uma vida perdida dentro de um espaço que deveria proteger — não matar.


E, mais uma vez, o poder público silencia, como se a vida de quem atua na assistência
social valesse menos.
Mas isso não foi uma fatalidade.
Foi o retrato cru de um sistema adoecido, negligente e desumano.


Um sistema que exige empatia, entrega e amor, mas nega segurança, estrutura e
dignidade.
Enquanto o poder público se esconde atrás de discursos sobre “política de proteção
social”, fica a pergunta:
quem protege o trabalhador?


Quem garante que o educador, o assistente social, o psicólogo, o orientador ou o
coordenador voltem vivos para casa depois do trabalho?
Quem se responsabiliza pelas vidas que se perdem — lentamente, pelo adoecimento —
ou brutalmente, pela violência?


A morte de um trabalhador da assistência não é um fato isolado.
É consequência direta de uma política pública sucateada, mal gerida e invisibilizada.
É o resultado de anos de descaso, da lógica do “faz o que dá”, do improviso, da falta de
investimento e da naturalização da precariedade.


Nós, trabalhadores e trabalhadoras do SUAS — especialmente do terceiro setor — não
seremos mártires de um sistema que nos abandona.
Exigimos segurança física, apoio técnico, estrutura adequada e respeito às condições de
trabalho em todos os níveis da rede socioassistencial.
Não é apenas a alta complexidade que precisa.


E ainda dizem que não temos direito ao adicional de insalubridade…
Exigimos responsabilização e ação imediata — não notas de pesar que jamais trarão um
colega de volta.


A política de assistência social só existe porque NÓS existimos.
E nós existimos em carne, osso e coragem — mas também com limites.
Somos seres humanos.


Não queremos homenagens póstumas.
Queremos vida, dignidade e compromisso real.
A vida de quem cuida também precisa ser cuidada.
E o grito que ecoa agora é simples e inegociável:



� Chega de precarização. Chega de negligência. Chega de adoecer e morrer
trabalhando.


SOBRE A ESTRUTURA, RESPONSABILIDADES E FALHAS DA GESTÃO PÚBLICA


Quem gerencia os serviços e decide para onde os acolhidos serão encaminhados?


O gerenciamento dos serviços é deliberado pelo Centro POP Rua – Centro de
Referência Especializado para a População em Situação de Rua, enquanto as
entidades executoras (OSCs) apenas cumprem as determinações e orientações da
Fundação de Assistência Social (FAS) e de seus técnicos concursados.


A FAS é responsável pelos editais, repasses financeiros, fiscalização e acompanhamento
dos serviços, mas frequentemente falha na escuta e no diálogo com as equipes que
estão na ponta.


Os relatórios e as dificuldades relatadas há anos não são considerados pela Fundação.
Editais mal elaborados, efetivos reduzidos e a mistura de públicos com perfis
completamente distintos — como usuários faccionados e detentos do regime semiaberto
— têm tornado o trabalho cada vez mais perigoso e insustentável.


Trata-se de serviços fragilizados, com estruturas precárias, incapazes de garantir
segurança e atendimento humanizado tanto para os usuários quanto para os
trabalhadores.


CASAS-LARES


Nas casas-lares, os profissionais enfrentam diariamente situações de extrema
complexidade, sendo frequentemente ameaçados e coagidos.


As equipes técnicas sofrem pressão de familiares dos acolhidos, enquanto os
educadores e cuidadores lidam diretamente com adolescentes em vulnerabilidade —
alguns com comportamentos agressivos, — sem recursos ou estrutura adequada para
acolher essas realidades.


Mesmo diante dessas adversidades, esses trabalhadores seguem exercendo suas funções
com responsabilidade, empatia e compromisso com a proteção social.


Porém, o olhar do Judiciário, na maioria das vezes, se volta apenas para o interno,
desconsiderando a palavra dos profissionais.


Crianças e adolescentes, por conhecerem o fluxo institucional e jurídico, muitas vezes
fazem relatos distorcidos para provocar demissões ou punições aos trabalhadores por
que não querem cumprir as regras estabelecidas.


Por isso, torna-se urgente a instalação de câmeras de segurança em todas as
unidades, garantindo que a verdade dos fatos possa ser comprovada — inclusive em
casos de agressões cometidas por acolhidos, que raramente são ouvidas pelos órgãos
competentes.


RELATO DE CONDIÇÕES DE TRABALHO


Casa de Acolhimento Bom Samaritano


A Casa de Acolhimento Bom Samaritano possui estrutura básica, com algumas câmeras
de monitoramento e vigilância até às 21h30.


O serviço atende, em média, 60 acolhidos, com apenas dois educadores sociais por
turno — uma proporção totalmente incompatível com as demandas.
A entrada dos acolhidos ocorre às 17h, quando há apenas um educador social e o
coordenador da casa, com apoio eventual.


Por volta das 19h30, chega o segundo educador social.


A partir das 21h30, permanecem apenas os dois educadores para o atendimento e
monitoramento dos 60 acolhidos.


Às 5h, um dos educadores encerra seu plantão, ficando o outro responsável por todas as
demandas da manhã, como:


 Preparar e liberar o café para 60 acolhidos;
 Organizar e liberar bolsas e pertences;
 Controlar abertura e fechamento de portões;
 Acompanhar conflitos e situações de risco;
 Garantir que nenhum acolhido permaneça nas camas durante o dia.


Após a saída da maioria dos acolhidos, o educador permanece sozinho na unidade,
responsável também pela organização e limpeza geral do espaço.


O plantão se encerra às 19h30, totalizando uma rotina exaustiva, com alto nível de
responsabilidade e sobrecarga.


Essa situação evidencia a falta de equipe suficiente, a ausência de vigilância em
horários críticos e a exposição dos trabalhadores a riscos físicos e emocionais,
comprometendo tanto a segurança quanto a qualidade do atendimento.


Casa de Passagem Carlos Miguel — atual Casa NÓS (Núcleo de Olhar Solidário)
Atualmente, o espaço acolhe 50 usuários, entre homens e mulheres, e conta com 22
trabalhadores, sendo 12 educadores sociais em escala 12×36 — o que resulta em
apenas três educadores por turno para atender todos os acolhidos.
Durante a semana, há apoio de um educador extra das 10h às 20h30, de segunda a sexta
feira.


Nos finais de semana, a equipe atua de forma ainda mais reduzida, sem suporte técnico
ou administrativo.


A situação se agrava pela ausência de câmeras de monitoramento, que deveriam
existir desde o início do funcionamento no novo endereço.
O processo de instalação foi travado por falta de autorização da FAS, mesmo após
apresentação de orçamentos.


A liberação ocorreu apenas recentemente, com previsão de repasse de R$ 10 mil para
novembro.


No antigo local, com 40 acolhidos, havia câmeras e melhor estrutura.
Entretanto, após a mudança — agora com 50 usuários e área física ampliada —, não
houve aumento da equipe, expondo ainda mais os trabalhadores.
Os educadores relatam constante vulnerabilidade, já que não é permitido realizar
revista corporal, apenas de mochilas.


Assim, pessoas ingressam no serviço com drogas e objetos cortantes escondidos no
corpo.
Mesmo com detector de metais, a revista é ineficaz, pois o aparelho dispara com cintos
e fivelas, dificultando o controle.


Além disso, os acolhidos têm acesso à cozinha, onde há facas e utensílios cortantes.
A equipe já alertou a FAS inúmeras vezes sobre o risco, recomendando o uso de
talheres seguros (colheres), mas os pedidos foram ignorados.


A ausência de auxiliares de cozinha, negada por “razões de economia”, obriga os
próprios usuários a auxiliarem no preparo das refeições, aumentando o risco.
Somente agora há promessa de contratar duas auxiliares noturnas, o que não resolve as
demandas dos turnos da manhã e da tarde.


Trabalhadores que sofrem agressões físicas ou ameaças registram boletins de ocorrência
e, muitas vezes, possuem medidas protetivas que não são respeitadas.
A mudança do serviço para o novo endereço foi realizada pelos próprios funcionários,
que executaram tarefas de elétrica e infraestrutura — atividades que deveriam ser de
responsabilidade do poder público.


Relato de Ocorrências — Casa de Acolhimento São Francisco
Os episódios a seguir ocorreram na Casa de Acolhimento São Francisco e retratam, com
clareza, a gravidade das condições de trabalho enfrentadas diariamente pelos
educadores sociais.


São fatos reais, registrados e comunicados aos órgãos competentes, que não podem
mais ser naturalizados nem ignorados.
(segue lista de 10 ocorrências – mantida integralmente com correções de grafia e
pontuação no texto original do usuário)


Casa Irmã Dulce — atual Casa Paz Rua
Possui 60 acolhidos, com escala 12×36,
7 educadores,
1 coordenador
1 cozinheira.
Não há profissional de limpeza.


CONSIDERAÇÕES FINAIS


Esses são apenas alguns dos inúmeros casos registrados.
A realidade diária revela ameaças, ofensas e agressões constantes — verbais e físicas
— contra educadores sociais.


Muitos acolhidos não são apenas pessoas em situação de rua, mas indivíduos com
histórico criminal, uso abusivo de substâncias, tornozeleira eletrônica e
comportamento violento.


O ambiente de trabalho torna-se, assim, inseguro e insalubre, afetando a saúde física e
mental dos profissionais, que, mesmo sob risco, continuam exercendo suas funções com
dedicação e responsabilidade.


REIVINDICAÇÕES E POSICIONAMENTO DO SENALBA CAXIAS DO SUL


O Senalba Caxias do Sul reafirma que essas falhas e situações de risco vêm sendo
denunciadas há anos.


A resposta da gestão pública tem sido sempre a mesma:
“Não há recursos, precisamos nos virar.”
Essa postura custou a vida de um educador .


Não contando os afastados por doença ou em tratamento médico e psicológico.
A morte recente de um educador social, vítima de agressão durante o trabalho, é o
retrato mais trágico da negligência institucional e da omissão diante dos alertas feitos
por quem está na linha de frente.


Casas-lares, abrigos e serviços de convivência enfrentam diariamente violência,
ameaças e insegurança, localizados em áreas vulneráveis, sem segurança armada,
câmeras de monitoramento ou protocolos adequados de revista e contenção.
Diante disso, reivindicamos:

  1. Instalação imediata de sistemas de monitoramento em todos os serviços de
    acolhimento;
  2. Aumento do efetivo de educadores sociais e contratação de equipes técnicas e de
    apoio (cozinha, limpeza, vigilância);
  3. Revisão dos protocolos de segurança, com acompanhamento do sindicato e
    participação dos trabalhadores;
  4. Garantia de condições dignas e seguras de trabalho, assegurando a integridade
    física e emocional dos profissionais;
  5. Que nenhum novo serviço seja aberto sem estrutura mínima e sem a correção
    dos problemas já existentes;
  6. Adequação dos quadros de profissionais e ampliação dos recursos humanos;
  7. Contratação de profissionais de limpeza e o aumento de cozinheiras para todos
    os serviços;
  8. Revisão do perfil de acolhidos, evitando o atendimento conjunto de pessoas
    com alta periculosidade.

    A tragédia ocorrida não pode ser esquecida.

    É preciso transformar a dor em ação e garantir que nenhum trabalhador perca
    novamente a vida por falta de segurança.

    O Senalba Caxias do Sul permanecerá vigilante e atuante, cobrando do poder público
    compromisso com a vida, a dignidade e o respeito aos profissionais da assistência
    social.

    Caxias do Sul, 22 de outubro de 2025